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PASSAGEM DAS HORASTrago dentro do meu coraçãoComo num cofre que se não pode fechar de cheioTodos os lugares onde estiveTodos os portos a que chegueiTodas as paisagens que vi através de janelas ou vigiasOu de tombadilhossonhandoE tudo issoque é tantoé pouco para o que eu quero.
A entrada de Singapuramanhã subindocor verdeO coral das Maldivas em passagem cálidaMacau à uma hora da noite... Acordo de repente...Yat-lô--ô-ôôô-ô-ô-ô-ô-ô-ô...Ghi-...E aquilo soa-me do fundo de uma outra realidade...A estatura norte-africana quase de Zanzibar ao sol...Dar-es-Salaam (a saída é difícil)...MajungaNossi-Béverduras de Madagascar...Tempestades em torno ao Guardafui...E o Cabo da Boa Esperança nítido ao sol da madrugada...E a Cidade do Cabo com a Montanha da Mesa ao fundo... 
Viajei por mais terras do que aquelas em que toquei...Vi mais paisagens do que aquelas em que pus os olhos...Experimentei mais sensações do que todas as sensações que sentiPorquepor mais que sentissesempre me faltou que sentirE a vida sempre me doeusempre foi poucoe eu infeliz. 
A certos momentos do dia recordo tudo isto e apavoro-mePenso em que é que me ficará desta vida aos bocadosdeste augeDesta entrada às curvasdeste automóvel à beira da estradadeste avisoDesta turbulência tranqüila de sensações desencontradasDesta transfusãodesta insubsistênciadesta convergência iriadaDeste desassossego no fundo de todos os cálicesDesta angústia no fundo de todos os prazeresDesta sociedade antecipada na asa de todas as chávenasDeste jogo de cartas fastiento entre o Cabo da Boa Esperança e as Canárias. 
Não sei se a vida é pouco ou demais para mim.Não sei se sinto de mais ou de menosnão seiSe me falta escrúpulo espiritualponto-de-apoio na inteligênciaConsangüinidade com o mistério das coisaschoqueAos contatossangue sob golpesestremeção aos ruídosOu se há outra significação para isto mais cômoda e feliz.
Seja o que forera melhor não ter nascidoPorquede tão interessante que é a todos os momentosA vida chega a doera enjoara cortara roçara rangerA dar vontade de dar gritosde dar pulosde ficar no chãode sairPara fora de todas as casasde todas as lógicas e de todas as sacadasE ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentosEntre tombose perigos e ausência de amanhãsE tudo isto devia ser qualquer outra coisa mais parecida com o que eu pensoCom o que eu penso ou sintoque eu nem sei qual éó vida.
Cruzo os braços sobre a mesaponho a cabeça sobre os braçosÉ preciso querer chorarmas não sei ir buscar as lágrimas...Por mais que me esforce por ter uma grande pena de mimnão choroTenho a alma rachada sob o indicador curvo que lhe toca...Que há de ser de mim? Que há de ser de mim?
Correram o bobo a chicote do paláciosem razãoFizeram o mendigo levantar-se do degrau onde caíra.Bateram na criança abandonada e tiraram-lhe o pão das mãos.Oh mágoa imensa do mundoo que falta é agir...Tão decadentetão decadentetão decadente...Só estou bem quando ouço músicae nem então.Jardins do século dezoito antes de 89Onde estais vósque eu quero chorar de qualquer maneira?
Como um bálsamo que não consola senão pela idéia de que é um bálsamoA tarde de hoje e de todos os dias pouco a poucomonótonacai.
Acenderam as luzescai a noitea vida substitui-se.Seja de que maneira foré preciso continuar a viver.Arde-me a alma como se fosse uma mãofisicamente.Estou no caminho de todos e esbarram comigo.Minha quinta na provínciaHaver menos que um comboiouma diligência e a decisão de partir entre mim e ti.Assim ficofico... Eu sou o que sempre quer partirE fica semprefica semprefica sempreAté à morte ficamesmo que partaficaficafica...
Torna-me humanoó noitetorna-me fraterno e solícito.Só humanitariamente é que se pode viver.Só amando os homensas açõesa banalidade dos trabalhosSó assim - ai de mim! -só assim se pode viver.Só assimo noitee eu nunca poderei ser assim!
Vi todas as coisase maravilhei-me de tudoMas tudo ou sobrou ou foi pouco - não sei qual - e eu sofri.Vivi todas as emoçõestodos os pensamentostodos os gestosE fiquei tão triste como se tivesse querido vivê-los e não conseguisse.Amei e odiei como toda genteMas para toda a gente isso foi normal e instintivoE para mim foi sempre a exceçãoo choquea válvulao espasmo.
Vemó noitee apaga-mevem e afoga-me em ti.Ó carinhosa do Alémsenhora do luto infinitoMágoa externa na Terrachoro silencioso do Mundo.Mãe suave e antiga das emoções sem gestoIrmã mais velhavirgem e tristedas idéias sem nexoNoiva esperando sempre os nossos propósitos incompletosA direção constantemente abandonada do nosso destinoA nossa incerteza pagã sem alegriaA nossa fraqueza cristã sem féO nosso budismo inertesem amor pelas coisas nem êxtasesA nossa febrea nossa palideza nossa impaciência de fracosA nossa vidao mãea nossa perdida vida...
Não sei sentirnão sei ser humanoconviverDe dentro da alma triste com os homens meus irmãos na terra.Não sei ser útil mesmo sentindoser práticoser quotidianonítidoTer um lugar na vidater um destino entre os homensTer uma obrauma forçauma vontadeuma hortaUnia razão para descansaruma necessidade de me distrairUma cousa vinda diretamente da natureza para mim.
Por isso sê para mim maternaó noite tranqüila...Tuque tiras o mundo ao mundotu que és a pazTu que não existesque és só a ausência da luzTu que não és uma coisarim lugaruma essênciauma vidaPenélope da teiaamanhã desfeitada tua escuridãoCirce irreal dos febrisdos angustiados sem causaVem para mimó noiteestende para mim as mãosE sê frescor e alívioo noitesobre a minha fronte...'Tucuja vinda é tão suave que parece um afastamentoCujo fluxo e refluxo de trevaquando a lua bafejaTem ondas de carinho mortofrio de mares de sonhoBrisas de paisagens supostas para a nossa angústia excessiva...TupalidamentetuflébiltuliquidamenteAroma de morte entre floreshálito de febre sobre margensTurainhatucastelãtudona pálidavem...
Sentir tudo de todas as maneirasViver tudo de todos os ladosSer a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempoRealizar em si toda a humanidade de todos os momentosNum só momento difusoprofusocompleto e longínquo.
Eu quero ser sempre aquilo com quem simpatizoEu torno-me sempremais tarde ou mais cedoAquilo com quem simpatizoseja uma pedra ou uma ânsiaSeja uma flor ou uma idéia abstrataSeja uma multidão ou um modo de compreender Deus.E eu simpatizo com tudovivo de tudo em tudo.São-me simpáticos os homens superiores porque são superioresE são-me simpáticos os homens inferiores porque são superiores tambémPorque ser inferior é diferente de ser superiorE por isso é uma superioridade a certos momentos de visão.Simpatizo com alguns homens pelas suas qualidades de caráterE simpatizo com outros pela sua falta dessas qualidadesE com outros ainda simpatizo por simpatizar com elesE há momentos absolutamente orgânicos em que esses são todos os homens.Simcomo sou rei absoluto na minha simpatiaBasta que ela exista para que tenha razão de ser.Estreito ao meu peito arfantenum abraço comovido(No mesmo abraço comovido)O homem que dá a camisa ao pobre que desconheceO soldado que morre pela pátria sem saber o que é pátriaE o matricidao fratricidao incestuosoo violador de criançasO ladrão de estradaso salteador dos maresO gatuno de carteirasa sombra que espera nas vielas —Todos são a minha amante predileta pelo menos um momento na vida.
Beijo na boca todas as prostitutasBeijo sobre os olhos todos os souteneursA minha passividade jaz aos pés de todos os assassinosE a minha capa à espanhola esconde a retirada a todos os ladrões.Tudo é a razão de ser da minha vida.
Cometi todos os crimesVivi dentro de todos os crimes(Eu próprio fuinão um nem o outro no vicioMas o próprio vício-pessoa praticado entre elesE dessas são as horas mais arco-de-triunfo da minha vida).
Multipliquei-mepara me sentirPara me sentirprecisei sentir tudoTransbordeinão fiz senão extravasar-meDespi-meentreguei-rneE há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente.
Os braços de todos os atletas apertaram-me subitamente femininoE eu só de pensar nisso desmaiei entre músculos supostos.
Foram dados na minha boca os beijos de todos os encontrosAcenaram no meu coração os lenços de todas as despedidasTodos os chamamentos obscenos de gesto e olharesBatem-me em cheio em todo o corpo com sede nos centros sexuais.Fui todos os ascetastodos os postos-de-partetodos os como que esquecidosE todos os pederastas - absolutamente todos (não faltou nenhum).Rendez-vous a vermelho e negro no fundo-inferno da minha alma!
(Freddieeu chamava-te Babyporque tu eras lourobranco e eu amava-teQuantas imperatrizes por reinar e princesas destronadas tu foste para mim!)Marycom quem eu lia Burns em dias tristes como sentir-se viverMarymal tu sabes quantos casais honestosquantas famílias felizesViveram em ti os meus olhos e o meu braço cingido e a minha consciência incertaA sua vida pacataas suas casas suburbanas com jardimOs seus half-holidays inesperados...Maryeu sou infeliz...Freddieeu sou infeliz...Ohvós todostodos vóscasuaisdemoradosQuantas vezes tereis pensado em pensar em mimsem que o fósseisAhquão pouco eu fui no que soisquão poucoquão pouco —Sime o que tenho eu sidoo meu subjetivo universoÓ meu solmeu luarminhas estrelasmeu momentoÓ parte externa de mim perdida em labirintos de Deus!
Passa tudotodas as coisas num desfile por mim dentroE todas as cidades do mundorumorejam-se dentro de mim ...Meu coração tribunalmeu coração mercadoMeu coração sala da Bolsameu coração balcão de BancoMeu coração rendez-vous de toda a humanidadeMeu coração banco de jardim públicohospedariaEstalagemcalabouço número qualquer cousa(Aqui estuvo el Manolo en vísperas de ir al patíbulo)Meu coração clubesalaplatéiacapachoguichetportalóPontecancelaexcursãomarchaviagemleilãofeiraarraialMeu coração postigoMeu coração encomendaMeu coração cartabagagemsatisfaçãoentregaMeu coração a margemo lirritea súmulao índiceEh-láeh-láeh-lábazar o meu coração.
Todos os amantes beijaram-se na minh'almaTodos os vadios dormiram um momento em cima de mimTodos os desprezados encostaram-se um momento ao meu ombroAtravessaram a ruaao meu braçotodos os velhos e os doentesE houve um segredo que me disseram todos os assassinos.
(Aquela cujo sorriso sugere a paz que eu não tenhoEm cujo baixar-de-olhos há uma paisagem da HolandaCom as cabeças femininas coiffées de linE todo o esforço quotidiano de um povo pacífico e limpo...Aquela que é o anel deixado em cima da cômodaE a fita entalada com o fechar da gavetaFita cor-de-rosanão gosto da cor mas da fita entaladaAssim como não gosto da vidamas gosto de senti-la ...
Dormir como um cão corrido no caminhoao solDefinitivamente para todo o resto do UniversoE que os carros me passem por cima.)
Fui para a cama com todos os sentimentosFui souteneur de todas ás emoçõesPagaram-me bebidas todos os acasos das sensaçõesTroquei olhares com todos os motivos de agirEstive mão em mão com todos os impulsos para partirFebre imensa das horas!Angústia da forja das emoções!Raivaespumaa imensidão que não cabe no meu lençoA cadela a uivar de noiteO tanque da quinta a passear à roda da minha insôniaO bosque como foi à tardequando lá passeamosa rosaA madeixa indiferenteo musgoos pinheirosToda a raiva de não conter isto tudode não deter isto tudoÓ fome abstrata das coisascio impotente dos momentosOrgia intelectual de sentir a vida!
Obter tudo por suficiência divina —As vésperasos consentimentosos avisosAs cousas belas da vida —O talentoa virtudea impunidadeA tendência para acompanhar os outros a casaA situação de passageiroA conveniência em embarcar já para ter lugarE falta sempre uma coisaum copouma brisaurna fraseE a vida dói quanto mais se goza e quanto mais se inventa.
Poder rirrirrir despejadamenteRir como um copo entornadoAbsolutamente doido só por sentirAbsolutamente roto por me roçar contra as coisasFerido na boca por morder coisasCom as unhas em sangue por me agarrar a coisasE depois dêem-me a cela que quiserem que eu me lembrarei da vida.
Sentir tudo de todas as maneirasTer todas as opiniõesSer sincero contradizendo-se a cada minutoDesagradar a si próprio pela plena liberalidade de espíritoE amar as coisas como Deus.
Euque sou mais irmão de uma árvore que de um operárioEuque sinto mais a dor suposta do mar ao bater na praiaQue a dor real das crianças em quem batem(Ahcomo isto deve ser falsopobres crianças em quem batem —E por que é que as minhas sensações se revezam tão depressa?)Euenfimque sou um diálogo continuoUm falar-alto incompreensívelalta-noite na torreQuando os sinos oscilam vagamente sem que mão lhes toqueE faz pena saber que há vida que viver amanhã.Euenfimliteralmente euE eu metaforicamente tambémEuo poeta sensacionistaenviado do AcasoAs leis irrepreensíveis da VidaEuo fumador de cigarros por profissão adequadaO indivíduo que fuma ópioque toma absintomas queenfimPrefere pensar em fumar ópio a fumá-loE acha mais seu olhar para o absinto a beber que bebê-lo...Eueste degenerado superior sem arquivos na almaSem personalidade com valor declaradoEuo investigador solene das coisas fúteisQue era capaz de ir viver na Sibéria só por embirrar com issoE que acho que não faz mal não ligar importâricia à pátriaPorqtie não tenho raizcomo uma árvoree portanto não tenho raizEuque tantas vezes me sinto tão real como uma metáfora
Como uma frase escrita por um doente no livro da rapariga que encontrou no terraçoOu uma partida de xadrez no convés dum transatlânticoEua ama que empurra os perambulators em todos os jardins públicosEuo policia que a olhaparado para trás na áleaEua criança no carroque acena à sua inconsciência lúcida com um coral com guizos.Eua paisagem por detrás disto tudoa paz citadinaCoada através das árvores do jardim públicoEuo que os espera a todos em casaEuo que eles encontram na ruaEuo que eles não sabem de si própriosEuaquela coisa em que estás pensando e te marca esse sorrisoEuo contraditórioo fictícioo aranzela espumaO cartaz posto agoraas ancas da francesao olhar do padreO largo onde se encontram as suas ruas e os chauffeurs dormem contra os carrosA cicatriz do sargento mal encaradoO sebo na gola do explicador doente que volta para casaA chávena que era por onde o pequenito que morreu bebia sempreE tem uma falha na asa (e tudo isto cabe num coração de mãe e enche-o)...Euo ditado de francês da pequenita que mexe nas ligasEuos pés que se tocam por baixo do bridge sob o lustreEua carta escondidao calor do lençoa sacada com a janela entreabertaO portão de serviço onde a criada fala com os desejos do primoO sacana do José que prometeu vir e não veioE a gente tinha uma partida para lhe fazer...Eutudo istoe além disto o resto do mundo...Tanta coisaas portas que se abreme a razão por que elas se abremE as coisas que já fizeram as mãos que abrem as portas...Eua infelicidade-nata de todas as expressõesA impossibilidade de exprimir todos os sentimentosSem que haja uma lápida no cemitério para o irmão de tudo istoE o que parece não querer dizer nada sempre quer dizer qualquer cousa... 
Simeuo engenheiro naval que sou supersticioso como uma camponesa madrinhaE uso monóculo para não parecer igual à idéia real que faço de mimQue levo às vezes três horas a vestir-me e nem por isso acho isso naturalMas acho-o metafísico e se me batem à porta zango-meNão tanto por me interromperem a gravata como por ficar sabendo que há a vida...Simenfimeu o destinatário das cartas lacradasO baú das iniciais gastasA entonação das vozes que nunca ouviremos mais -Deus guarda isso tudo no Mistérioe às vezes sentimo-loE a vida pesa de repente e faz muito frio mais perto que o corpo.A Brígida prima da minha tiaO general em que elas falavam - general quando elas eram pequenasE a vida era guerra civil a todas as esquinas...Vive le mélodrame oú Margot a pleuré!Caem as folhas secas no chão irregularmenteMas o fato é que sempre é outono no outonoE o inverno vem depois fatalmentehá só um caminho para a vidaque é a vida... 
Esse velho insignificantemas que ainda conheceu os românticosEsse opúsculo político do tempo das revoluções constitucionaisE a dor que tudo isso deixasem que se saiba a razãoNem haja para chorar tudo mais razão que senti-lo.
Viro todos os dias todas as esquinas de todas as ruasE sempre que estou pensando numa coisaestou pensando noutra.Não me subordino senão por atavisnioE há sempre razões para emigrar para quem não está de cama.
Das serrasses de todos os cafés de todas as cidadesAcessíveis à imaginaçãoReparo para a vida que passasigo-a sem me mexerPertenço-lhe sem tirar um gesto da algibeiraNem tomar nota do que vi para depois fingir que o vi.
No automóvel amarelo a mulher definitiva de alguém passaVou ao lado dela sem ela saber.No trottoir imediato eles encontram-se por um acaso combinadoMas antes de o encontro deles lá estar já eu estava com eles lá.Não há maneira de se esquivarem a encontrar-meNão há modo de eu não estar em toda a parte.O meu privilégio é tudo(BrevetéeSans Garantie de Dieua minh'Alma).
Assisto a tudo e definitivamente.Não há jóia para mulher que não seja comprada por mim e para mimNão há intenção de estar esperando que não seja minha de qualquer maneiraNão há resultado de conversa que não seja meu por acasoNão há toque de sino em Lisboa há trinta anosnoite de S. Carlos há cinqüentaQue não seja para mim por uma galantaria deposta.
Fui educado pela ImaginaçãoViajei pela mão dela sempreAmeiodieifaleipensei sempre por issoE todos os dias têm essa janela por dianteE todas as horas parecem minhas dessa maneira.
Cavalgada explosivaexplodidacomo uma bomba que rebentaCavalgada rebentando para todos os lados ao mesmo tempoCavalgada por cima do espaçosalto por cima do tempoGalgacavalo eléctron-íonsistema solar resumidoPor dentro da ação dos êmbolospor fora do giro dos volantes.Dentro dos êmbolostornado velocidade abstrata e loucaAjo a ferro e velocidadevaivémloucuraraiva contidaAtado ao rasto de todos os volantes giro assombrosas horasE todo o universo rangeestraleja e estropia-se em mim.
Ho-ho-ho-ho-ho!...Cada vez mais depressacada vez mais com o espírito adiante do corpoAdiante da própria idéia veloz do corpo projetadoCom o espírito atrás adiante do corposombrachispaHe-la-ho-ho ... Helahoho ...
Toda a energia é a mesma e toda a natureza é o mesmo...A seiva da seiva das árvores é a mesma energia que mexeAs rodas da locomotivaas rodas do elétricoos volantes dos DieselE um carro puxado a mulas ou a gasolina é puxado pela mesma coisa.
Raiva panteísta de sentir em mim formidandamenteCom todos os meus sentidos em ebuliçãocom todos os meus poros em fumoQue tudo é uma só velocidadeuma só energiauma só divina linhaDe si para siparada a ciciar violências de velocidade louca...Ho ----
Avesalveviva a unidade veloz de tudo!Avesalveviva a igualdade de tudo em seta!Avesalveviva a grande máquina universo!Aveque sois o mesmoárvoresmáquinasleis!Aveque sois o mesmovermesêmbolosidéias abstratasA mesma seiva vos enchea mesma seiva vos tornaA mesma coisa soise o resto é por fora e falsoO restoo estático resto que fica nos olhos que paramMas não nos meus nervos motor de explosão a óleos pesados ou levesNão nos meus nervos todas as máquinastodos os sistemas de engrenagemNos meus nervos locomotivacarro elétricoautomóveldebulhadora a vapor
Nos meus nervos máquina marítimaDieselsemi-DieselCampbellNos meus nervos instalação absoluta a vapora gása óleo e a eletricidadeMáquina universal movida por correias de todos os momentos!
Todas as madrugadas são a madrugada e a vida.Todas as auroras raiam no mesmo lugar:Infinito...Todas as alegrias de ave vêm da mesma gargantaTodos os estremecimentos de folhas são da mesma árvoreE todos os que se levantam cedo para ir trabalharVão da mesma casa para a mesma fábrica por o mesmo caminho...
Rolabola grandeformigueiro de consciênciasterraRolaauroreadaentardecidaa prumo sob sóisnoturnaRola no espaço abstratona noite mal iluminada realmenteRola ...
Sinto na minha cabeça a velocidade de giro da terraE todos os países e todas as pessoas giram dentro de mimCentrífuga ânsiaraiva de ir por os ares até aos astrosBate pancadas de encontro ao interior do meu crânioPõe-me alfinetes vendados por toda a consciência do meu corpoFaz-me levantar-me mil vezes e dirigir-me para AbstratoPara inencontrávelAli sem restrições nenhumasA Meta invisível — todos os pontos onde eu não estou — e ao mesmo tempo ...
Ahnão estar parado nem a andarNão estar deitado nem de péNem acordado nem a dormirNem aqui nem noutro ponto qualquerResoler a equação desta inquietação prolixaSaber onde estar para poder estar em toda a parteSaber onde deitar-me para estar passeando por todas as ruas ...
Ho-ho-ho-ho-ho-ho-ho
Cavalgada alada de mim por cima de todas as coisasCavalgada estalada de mim por baixo de todas as coisasCavalgada alada e estalada de mim por causa de todas as coisas ...
Hup-la por cima das árvoreshup-la por baixo dos tanquesHup-la contra as paredeshup-la raspando nos troncosHup-la no arhup-la no ventohup-lahup-la nas praiasNuma velocidade crescenteinsistenteviolentaHup-la hup-la hup-la hup-la ...
Cavalgada panteísta de mim por dentro de todas as coisasCavalgada energética por dentro de todas as energiasCavalgada de mim por dentro do carvão que se queimada lâmpada que ardeClarim claro da manhã ao fundoDo semicírculo frio do horizonteTênue clarim longínquo como bandeiras incertasDesfraldadas para além de onde as cores são visíveis ...
Clarim trêmulopoeira paradaonde a noite cessaPoeira de ouro parada no fundo da visibilidade ...
Carro que chia limpidamentevapor que apitaGuindaste que começa a girar no meu ouvidoTosse secanova do que sai de casaLeve arrepio matutino na alegria de viverGargalhada súbita velada pela bruma exterior não sei comoCostureira fadada para pior que a manhã que senteOperário tísico desfeito para feliz nesta horaInevitavelmente vitalEm que o relevo das coisas é suavecerto e simpáticoEm que os muros são frescos ao contacto da mãoe as casasAbrem aqu; e ali os olhos cortinados a branco...
Toda a madrugada é uma colina que oscila...................................................................... e caminha tudo
Para a hora cheia de luz em que as lojas baixam as pálpebrasE rumor tráfego carroça comboio eu sinto sol estruge
Vertigem do meio-dia emoldurada a vertigens —Sol dos vértices e nos... da minha visão estriadaDo rodopio parado da minha retentiva secaDo abrumado clarão fixo da minha consciência de viver.
Rumor tráfego carroça comboio carros eu sinto sol ruaAros caixotes trolley loja rua iitrines saia olhosRapidamente calhas carroças caixotes rua atravessar ruaPasseio lojistas "perdão" ruaRua a passear por mim a passear pela rua por mimTudo espelhos as lojas de cá dentro das lojas de láA velocidade dos carros ao contrário nos espelhos oblíquos das montrasO chão no ar o sol por baixo dos pés rua regas flores no cesto ruaO meu passado rua estremece camion rua não me recordo rua
Eu de cabeça pra baixo no centro da minha consciência de mimRua sem poder encontrar uma sensação só de cada vez ruaRua pra trás e pra diante debaixo dos meus pésRua em X em Y em Z por dentro dos meus braçosRua pelo meu monóculo em círculos de cinematógrafo pequenoCaleidoscópio em curvas iriadas nítidas rua.Bebedeira da rua e de sentir ver ouvir tudo ao mesmo tempo.Bater das fontes de estar vindo para cá ao mesmo tempo que vou para lá.Comboio parte-te de encontro ao resguardo da linha de desvio!Vapor navega direito ao cais e racha-te contra ele!Automóvel guiado pela loucura de todo o universo precipita-tePor todos os precipícios abaixoE choca-tetrz!esfrangalha-te no fundo do meu coração!
À moitodos os objetos projéteis!À moitodos os objetos direções!À moitodos os objetos invisíveis de velozes!Batam-metrespassem-meultrapassem-me!Sou eu que me batoque me trespassoque me ultrapasso!A raiva de todos os ímpetos fecha em círculo-mim!
Hela-hoho comboioautomóvelaeroplano minhas ânsiasVelocidade entra por todas as idéias dentroChoca de encontro a todos os sonhos e parte-osChamusca todos os ideais humanitários e úteisAtropela todos os sentimentos normaisdecentesconcordantesColhe no giro do teu volante vertiginoso e pesadoOs corpos de todas as filosofiasos tropos de todos os poemasEsfrangalha-os e fica só tuvolante abstrato nos aresSenhor supremo da hora européiametálico a cio.Vamosque a cavalgada não tenha fim nem em Deus!............................................................................................................................................................................................................................................................
Dói-me a imaginação não sei comomas é ela que dóiDeclina dentro de mim o sol no alto do céu.Começa a tender a entardecer no azul e nos meus nervos.Vamos ó cavalgadaquem mais me consegues tornar?Eu quevelozvorazcomilão da energia abstrataQueria comerbeberesfolar e arranhar o mundoEuque só me contentaria com calcar o universo aos pésCalcarcalcarcalcar até não sentir.Eusinto que ficou fora do que imaginei tudo o que quisQue embora eu quisesse tudotudo me faltou.
Cavalgada desmantelada por cima de todos os cimosCavalgada desarticulada por baixo de todos os poçosCavalgada vôocavalgada setacavalgada pensamento-relâmpagoCavalgada eucavalgada eucavalgada o universo — eu.Helahoho-o-o-o-o-o-o-o ...
Meu ser elásticomolaagulhatrepidação ...
Álvaro de Campos22-5-1916 



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